quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

saídas devoradas



os cães ladram nos portões da frente.

seus indomáveis olhos acesos
citam
Ginsberg e Dylan Thomas.

uivam os próprios nomes
e ganem sobre os nervos.

agarrado aos segredos amáveis,
aos senhores admiráveis do tempo,
os observo pela janela;

a caneta febril
querendo histórias,
roupas de couro,
danças dionisíacas
e abraços...

o lápis egoísta
segurando a vida,
a canção,
o contra-urro.

impedindo o xamã
de bailar
ao redor da mesa.

vomito poesia,
imagens contorcidas,
sangue,
demência:

- qual destas sou eu?

o amor
em verso e prosa
vocifera

a ferir ouvidos
e narinas:

- doce fera acústica!

nas frestas a carne crua,
esconderijo de demônios,
reza rijos sonhos empedrados

(remédios e calafrios)

os cães ladram nos portões da frente;

unhas de ferro
no quadro negro
riscam e arriscam
um arisco adeus.

acidentes coletivos
matam formigas,
humanos e peixes,

feixes atômicos,
quedas sinfônicas,
parlendas:

a morte não mora
no cercado da fazenda,

não vive de renda,

não emenda uma vida em outra,

não corre no hipódromo,
não desfila no sambódromo

(espezinha delirantes veias abertas)

os mortos só cabem
no fundo da vala.

o céu é dos vivos e atrevidos,
dos jogadores,
das putas bêbadas,
dos sifilíticos em transe,
dos leves e loucos.

os cães ladram nos portões da frente;

arreganham seus dentes brancos,
mordem as grades do pensamento
e informam que as saídas foram devoradas.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

GRUNGE



Tenho urgências na pele.

Tenho uma porção
De questões espinhosas
Sob as unhas.

Quando me coço
As urgências sangram.

Vou ao shopping em carne viva
E exponho meu tempo.

Não ganho nada,
Mas descubro o couro,
O fogo, a roda e o hambúrguer.

É isso que me faz ser gente

E o manequim
Mais gente
Do que eu?!

Fez
½
Segundo

E cantei parabéns.

Fez outro
½
Segundo

E cantei parabéns de novo.

Pode ser que eu morra
Ou
Que morra o meu amor
Ou
Que morra Jesus

E todos os anjos de pedra.

Pode ser! Quem sabe?!

Essas urgências
(lá vem o bonde!)
São de praia, talvez,
São de hospital, quem sabe,

Quem sabe?! Quem?!

- Os publicitários!
Responde o cadáver
Do General.

Mas não são pressas!
São urgências!
Não comem frio!
Comem pele!

Aos quarenta e cinco do 2º tempo
Alguém bate à porta.

Viro as costas e sai um gol.

Abro a porta e entra um velho:

E sai um sonho
E estrangula o velho
E o velho não grita
Não pede socorro
Só porque é velho
E passou do tempo
E entende urgências
Porque é de urgências
Que se fazem os velhos
Os viciados
E os finais de mundo.

no giro pelo pátio, que tudo fique bem claro:



o som do sax aveludado não guarda íntima relação com o uísque tomado aos goles pela manhã. em suas notas as variantes do ódio que a vizinha destina à fumaça prestimosa do meu amado cigarro artesanal, atrela-se fielmente aos oitocentos suicídios promovidos pela tribo dos kaiowas.

lá não se ouvia jazz! não se tomava uísque no café! e os índios não se deparavam, a cada esquina, com placas de trânsito reluzentes a apontar o caminho mais curto para o céu.

acolá, no seio da aldeia, o tempo jamais beijou as engrenagens dos vistosos relógios de pulso que ainda hoje abençoam os vagabundos que dormem nas cadeiras macias do poder.

e que fique bem claro:

as pegadas do homem branco e os resquícios de tinta encontrados nos restos amarelados dos documentos europeus, comprovam que a intolerância mata! desovam a verdade: milhões de pessoas em crise de identidade cultural, domesticadas como cães de comercial barato, não podem viver juntas sem destruir tudo ao seu redor com química, fezes, urina e pólvora!