os cães ladram nos portões da frente.
seus indomáveis olhos acesos
citam
Ginsberg e Dylan Thomas.
uivam os próprios nomes
e ganem sobre os nervos.
agarrado aos segredos amáveis,
aos senhores admiráveis do tempo,
os observo pela janela;
a caneta febril
querendo histórias,
roupas de couro,
danças dionisíacas
e abraços...
o lápis egoísta
segurando a vida,
a canção,
o contra-urro.
impedindo o xamã
de bailar
ao redor da mesa.
vomito poesia,
imagens contorcidas,
sangue,
demência:
- qual destas sou eu?
o amor
em verso e prosa
vocifera
a ferir ouvidos
e narinas:
- doce fera acústica!
nas frestas a carne crua,
esconderijo de demônios,
reza rijos sonhos empedrados
(remédios e calafrios)
os cães ladram nos portões da frente;
unhas de ferro
no quadro negro
riscam e arriscam
um arisco adeus.
acidentes coletivos
matam formigas,
humanos e peixes,
feixes atômicos,
quedas sinfônicas,
parlendas:
a morte não mora
no cercado da fazenda,
não vive de renda,
não emenda uma vida em outra,
não corre no hipódromo,
não desfila no sambódromo
(espezinha delirantes veias abertas)
os mortos só cabem
no fundo da vala.
o céu é dos vivos e atrevidos,
dos jogadores,
das putas bêbadas,
dos sifilíticos em transe,
dos leves e loucos.
os cães ladram nos portões da frente;
arreganham seus dentes brancos,
mordem as grades do pensamento
e informam que as saídas foram devoradas.

